O que está nos matando é uma doença chamada de automobilismo

Ciclovia da Av. Bernado Monteiro. Foto Gil Sotero

Ciclovia da Av. Bernado Monteiro. Foto Gil Sotero

Por Gil Sotero

Qualquer pessoa que pedala pelas ciclovias de BH e talvez de todo o Brasil, se depara com pedestres ocupando-a também. Muito embates começam ai. Há tempos venho refletindo sobre a quem interessa a existência desse conflito. Semana passada após a Audiência Pública na Câmara Municipal de BH, sobre a segurança do ciclista na cidade, em que a PBH não enviou um único sequer representante para ouvir os ciclistas, apesar de alardear para os quatro cantos (da mídia) que é uma gestão moderna, eficiente e preocupada com o desenvolvimento sustentável da cidade, me recordei desse texto que lí há algum tempo de um coletivo chileno, em que eles respondiam a um jornal uma carta de um pedestre que dizia temer ser atropelada por ciclistas. As vésperas do Dia Mundial Sem Carro quero compartilha-la (fiz uma tradução livre dela e acrescentei algo sobre nosso contexto).

O que está nos matando é uma doença chamada de automobilismo

Eu desejo que cada dia mais e mais pessoas decidam ir pedalando e conquistando as ruas e vias publicas  que são o espaço certo para a circulação de veículos e bicicletas. Reconheço que a cultura rodoviarista e da velocidade não agrega o sentimento de segurança que as pessoas precisam para pedalar. Para muitos não-ciclistas, a imagem de um ciclista pedalando entre carros não é muito acolhedor ou convidativo a pedalar até mesmo para ciclistas pode parecer difícil encarar o transito.  Por esse motivo muitos seguem por calçadas, espaço de circulação de pedestres, alguns usam o bom senso e  extrema cautela e cuidado, ao compartilhar esse espaço. Já outros péssimos condutores de bicicleta revelam sua  falta de respeito para os cidadãos.

A imprensa como uma grande quantidade de ervas daninhas, espalha isso como se fosse uma guerra entre ciclistas e pedestres. Há também pessoas que gostam de  atacar tudo que tem a ver com pedalar na cidade. E que conveniente é isso para as autoridades que com infraestruturas medíocres tem feito ciclovias inadequadas. E que conveniente também é para aqueles que insistem em promover o carro porque o ‘conflito” entre pedestres e ciclistas desvia a atenção do verdadeiro culpado.

O conflito que hoje há na calçada é apenas um dos sintomas de uma doença maior chamada automobilismo. Esse mal que lentamente começou a se espalhar através das cidades, fez os tomadores de decisões, as autoridades e empresas, ficarem abobados com os negócios e a modernidade que o carro oferecia e como “clientes” acreditavam comprar liberdade e status.

Assim transformaram os caminhos, criaram  uma legislação para dar-lhes prioridade sobre quaisquer outros meios, liquidaram o transporte público. As caminhadas e o ciclismo se tornaram um obstáculo a suas operações de tornar o carro o meio absoluto de deslocamento urbano. Perdemos a calma dos  bairros, ruas e avenidas. Apareceu a eterna espera nos semáforos, as chances de atravessar uma rua é reduzido para “travessia permitida”. Cruzamentos estreitaram as calçadas e rampas foram permeados por avisos sonoros que indicam ao “pedestre desavisado” que o  “rei das ruas” está saindo. Os cruzamentos aliás viraram um ato de adrenalina, como cruzes nos cantos.

Pare por um segundo e veja as pessoas correndo, mesmo que o sinal esteja verde para elas, contra a ameaça do veículo e o medo de ser atropelada. Hoje no Brasil qualquer pessoa pode usar o carro para matar outra e sair livre. Nós justificamos a matança. Perdemos todo o senso de sobrevivência e não conseguimos proteger a vida e a saúde das pessoas.

Negamos a rua e o espaço público para crianças que estão engordando e sofrendo com os efeitos desse ‘sedentarismo forçado’ cada vez mais precocemente,  e deixamos os nossos idosos reclusos em suas casas. Perdemos todo o senso de público e começamos a pensar a partir do privado, não conseguimos reconhecer o outro e perdemos o respeito para os nossos co-cidadãos. No traçado urbano temos muita engenharia e pouco design prático para humanos.

A presença do ciclista na calçada ou do pedestre na ciclovia é um sintoma desta doença automobilística brutal e enquanto começamos a complicar apenas o conflito entre pedestres e ciclistas esquecemos que  somos ameaçados pelo paradigma errado, que prejudica o acesso e mobilidade para todos na cidade. Mesmo aos usuários dos automóveis. Carros demais fazem mal a todos.

Se queremos conseguir uma melhor qualidade de vida urbana, precisamos escutar a nossa consciência,  reconhecer essa enfermidade, e projetar a cidade tendo o corpo humano como o centro e não as 2 toneladas de vidro e plástico de metal que deformou toda a cidade.

A revolução se consegue pedalando.

Publicada originalmente em: http://www.arribaelachancha.cl

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