Bicicleta para mulheres?

By Jéssica Almeida (*)

Esqueça as bicicletas cor-de-rosa, as flores na cestinha e o top tube rebaixado. Esses ítens estão também em bicicletas pedaladas por mulheres, mas não por todas elas. Pensar em bicicleta ideal para mulher é universalizar o “ser mulher”, é tornar invisível as necessidades e vivências de cada uma. Infelizmente, mas não surpreendentemente, é preciso lembrar que as mulheres não são iguais, logo, não há bicicleta para mulheres, porque ser mulher é ser diversa.

goatheadz

O que ainda chamam de “bicicleta para mulher” é o protótipo usado no século XX, onde a mulher que pedalava tinha um perfil estereotipado: estatura média-alta e moradora de cidades aplanadas e frias. O cenário é outro faz tempo, mas o imaginário popular ainda é conduzido por essa padronização. Mas principalmente nas cidades urbanas, é preciso pensar numa série de fatores: como você quer usar a bicicleta? Você quer que ela seja seu meio de transporte, seu instrumento para prática de um esporte, ou apenas para o lazer aos fins de semana? Outra pergunta muito importante é: qual é a sua estatura?

Transporte:

Para percorrer grandes distâncias em menos tempo e com mais facilidade, é legal dar uma olhada nas speeds. A vantagem é que esse tipo de bicicleta, por ser mais veloz, faz grandes percursos em um tempo bem menor. A desvantagem é que o selim costuma ser mais alto que o guidão, o que te fará pedalar com o corpo mais inclinado para a frente e isso pode incomodar um pouco as costas e pescoço no início. Fique atenta também ao tamanho do aro! Minha ex-companheira AzulCrina (RIP), uma Caloi 10 anos 80-90, tinha aro 27 e era muuuuito difícil encontrar câmaras de ar para ela em BH. Fique de olho nos aros 700.

Janaïna Rochido sobre a Alvares Cabral numa bike speed aro 700. Foto Gil Sotero

Também há a possibilidade de você fazer seu trajeto integrando a bicicleta ao transporte público. Nesse caso, uma boa pedida pode ser a bicicleta dobrável, que é fácil de carregar e guardar. Em um minuto você a “monta e desmonta” e ela pode ser embarcada nos metrôs e ônibus como uma bagagem comum. Se seu trajeto for curto, melhor ainda.

Renata Aiala em sua dobrável. Foto Gil Sotero

Renata Aiala em sua dobrável. Foto Gil Sotero

Já ouviu falar nas bikes single speed e fixa? As singles tem uma única marcha, são mecanicamente mais simples e muito indicadas para o uso diário e topografia plana. A desvantagem, que na verdade nem é tão desvantajosa assim, é que subir morrinhos exige muito esforço. Como ela atinge uma velocidade razoável no plano, para subir é preciso colocar mais força no pedal, pedalar em pé ou, dependendo do seu condicionamento ou da inclinação do morro, descer e empurrar sua bici. Já as fixas, são conhecidas pela pedalada constante, uma vez que os pedais empurram seus pés a rodar mesmo numa descida (consequência do pinhão que mantem o giro da roda diretamente conectado ao giro da corrente). Já ouvi várias pessoas conhecidas relatarem sobre como é completamente diferente a experiência de usar uma bicicleta fixa, pois a própria bicicleta é uma grande sujeita da pedalada. Apesar do esforço também maior em subidas, ela aproveita melhor os movimentos das suas pernas. A desvantagem principal das fixas é que para descer aclives é preciso muito controle das pernas para que os pedais não atinjam uma velocidade que você não dê conta; coisa que amigas e amigos fixeiros me contaram é que com a prática isso deixa de ser um problema. E amiguinhas, um mito: singles e fixas não são mais perigosas que as bicicletas de roda livre. Tudo vai depender do que você quer pedalando e da sua prática.

 

Bruna Castro usando um single em BH


 

Aline Souza usa bicicleta fixa há anos em SP e a qualquer cidade que visita.

  

Mulheres que praticam pouca ou nenhuma atividade física podem se adaptar com maior dificuldade em bicicletas speed, single speed ou fixas. Só pedalar muito que melhora. Fique atenta também aos materiais que compõem as peças. Se seu uso vai ser diário ou longo ou com morrinhos, dê uma pesquisada nos materiais mais leves.

Trilha:

Vocês pensam que não, mas a mulherada curte mountain bike também. E ao se envolver no rolê das trilhas, é preciso ter bastante atenção ao escolher bicicletas com uma suspensão resistente para aguentar o tranco dos impactos. Elas tem pelos menos 21 marchas, os pneus devem ser de cravos e leveza também é fundamental. O bacana é que nada te impede de usá-la no asfalto também, moça. E atenção ao fato de que, como essas bicicletas estão sempre sujeitas a condições diversas de terreno, vão precisar de manutenção mais frequente. Elas normalmente são aro 26, mas é possível encontrá-las com aros 27,5 e 29.

juliane rocha

Juliane Rocha (e esposo) em trilhas perto de BH. Acervo

Lazer:

Para pedalar fins de semana, as bicicletas mais simples são suficientes. Procure pelas bicicletas híbridas ou confort bike.

Materiais:

Podem variar de acordo com os mesmos fatores: peso e motivo de uso. O aço é o mais comum. É bom, forte e dura muito, mas bem pesadinho. Para ter uma bike como meio de transporte talvez não seja uma boa ideia optar pela de aço. O cromoly é bem leve, mas forte e duradouro, ideal para o uso diário e percursos longos. Porém, é preciso investir um pouco mais financeiramente justamente por ter estas vantagens. O alumínio também é comum e até barato. Não é tão pesado e é bem resistente.

E onde minha altura fica nessa história?

Altura média da mulher em metros em relação ao tamanho do quadro:

Por exemplo:

Uma mulher se 1,50 – 1,60 é mais indicada a pedalar com quadro de 15 polegadas no caso de MTB (mountain bikes) e algumas bicicletas híbridas (esses modelos são medidos em polegadas mesmo) ou 48cm para quadros de speed (nesse caso, medida em centímetros).

E aí a gente segue:

1m60 – 1m70 x 16/17′ ou 50/52/54 cm
1m70 – 1m80 x 18/20′ ou 54/55/56 cm
1m80 – 1m90 x 21/22′ ou 57/58 cm
1m90 x 22′ ou 60/62 cm

Para saber mais sobre o tamanho certo leia aqui.

Geralzão:

O formato dos quadros não vai depender do seu gênero e sim de quanto tempo você vai passar pedalando. A Escola de Bike tem um conteúdo bem bacana explicando as variedades de seat tube e top tube. Ficou mais perdida ainda com os termos? No link o pessoal indicou tudo! Mulheres com obesidade e que ficaram na dúvida também podem conferir várias informações importantes aqui. Outra dica importantíssima é saber fazer ao menos a mecânica básica da bici escolhida. Não espere ninguém te ensinar, gata. Compre ferramentinhas básicas como um canivete de chaves allen, philips e torx (rapidinho você vai tirar de letra qual é qual), espátulas, remendos, cola e bomba de ar e dê uma chafurdada em tutoriais e sites que ensinam os procedimentos principais. Você é mais do que capaz e não precisa ficar na mão quando um pneu furar ou algum parafusinho afrouxar né?

O importante é pedalar e ser senhora da sua autonomia e do seu trânsito nesse mundão. Costumo dizer que a bicicleta é uma das ferramentas mais libertadoras que existem e sua presença no espaço público é fundamental.

P.S.: Isso tudo foi embasado em conversas com amigas e amigos e coisas que fui aprendendo em 2 anos pedalando, sendo um ano usando a bike como meio de transporte. O que eu não sabia, eu soube fazendo o que a ente devia ser mestre em fazer: pesquisando. Caso haja generalizações ou considerações fora de lugar, usem o espaço dos comentários para trocarmos ideias.


Jessica de Almeida, 22, aprendiz de jornalista e bicicleteira.

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One thought on “Bicicleta para mulheres?

  1. Pingback: BH Cycle Chic: “Bicicleta ‘de mulher’?” | Escreva, Jessica!

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