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Pedalando na Virada 

Durante a Virada Cultural muitos escolheram curtir as atrações indo de bicicleta. Elizabete Costa, 55, mora no centro e já usa a bicicleta há anos. “Já deixei o carro há muito tempo. Moro no centro e só uso a bicicleta. Bicicleta é sinônimo de desenvolvimento no exterior”. 

   
    
 

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O que está nos matando é uma doença chamada de automobilismo

Ciclovia da Av. Bernado Monteiro. Foto Gil Sotero

Ciclovia da Av. Bernado Monteiro. Foto Gil Sotero

Por Gil Sotero

Qualquer pessoa que pedala pelas ciclovias de BH e talvez de todo o Brasil, se depara com pedestres ocupando-a também. Muito embates começam ai. Há tempos venho refletindo sobre a quem interessa a existência desse conflito. Semana passada após a Audiência Pública na Câmara Municipal de BH, sobre a segurança do ciclista na cidade, em que a PBH não enviou um único sequer representante para ouvir os ciclistas, apesar de alardear para os quatro cantos (da mídia) que é uma gestão moderna, eficiente e preocupada com o desenvolvimento sustentável da cidade, me recordei desse texto que lí há algum tempo de um coletivo chileno, em que eles respondiam a um jornal uma carta de um pedestre que dizia temer ser atropelada por ciclistas. As vésperas do Dia Mundial Sem Carro quero compartilha-la (fiz uma tradução livre dela e acrescentei algo sobre nosso contexto).

O que está nos matando é uma doença chamada de automobilismo

Eu desejo que cada dia mais e mais pessoas decidam ir pedalando e conquistando as ruas e vias publicas  que são o espaço certo para a circulação de veículos e bicicletas. Reconheço que a cultura rodoviarista e da velocidade não agrega o sentimento de segurança que as pessoas precisam para pedalar. Para muitos não-ciclistas, a imagem de um ciclista pedalando entre carros não é muito acolhedor ou convidativo a pedalar até mesmo para ciclistas pode parecer difícil encarar o transito.  Por esse motivo muitos seguem por calçadas, espaço de circulação de pedestres, alguns usam o bom senso e  extrema cautela e cuidado, ao compartilhar esse espaço. Já outros péssimos condutores de bicicleta revelam sua  falta de respeito para os cidadãos.

A imprensa como uma grande quantidade de ervas daninhas, espalha isso como se fosse uma guerra entre ciclistas e pedestres. Há também pessoas que gostam de  atacar tudo que tem a ver com pedalar na cidade. E que conveniente é isso para as autoridades que com infraestruturas medíocres tem feito ciclovias inadequadas. E que conveniente também é para aqueles que insistem em promover o carro porque o ‘conflito” entre pedestres e ciclistas desvia a atenção do verdadeiro culpado.

O conflito que hoje há na calçada é apenas um dos sintomas de uma doença maior chamada automobilismo. Esse mal que lentamente começou a se espalhar através das cidades, fez os tomadores de decisões, as autoridades e empresas, ficarem abobados com os negócios e a modernidade que o carro oferecia e como “clientes” acreditavam comprar liberdade e status.

Assim transformaram os caminhos, criaram  uma legislação para dar-lhes prioridade sobre quaisquer outros meios, liquidaram o transporte público. As caminhadas e o ciclismo se tornaram um obstáculo a suas operações de tornar o carro o meio absoluto de deslocamento urbano. Perdemos a calma dos  bairros, ruas e avenidas. Apareceu a eterna espera nos semáforos, as chances de atravessar uma rua é reduzido para “travessia permitida”. Cruzamentos estreitaram as calçadas e rampas foram permeados por avisos sonoros que indicam ao “pedestre desavisado” que o  “rei das ruas” está saindo. Os cruzamentos aliás viraram um ato de adrenalina, como cruzes nos cantos.

Pare por um segundo e veja as pessoas correndo, mesmo que o sinal esteja verde para elas, contra a ameaça do veículo e o medo de ser atropelada. Hoje no Brasil qualquer pessoa pode usar o carro para matar outra e sair livre. Nós justificamos a matança. Perdemos todo o senso de sobrevivência e não conseguimos proteger a vida e a saúde das pessoas.

Negamos a rua e o espaço público para crianças que estão engordando e sofrendo com os efeitos desse ‘sedentarismo forçado’ cada vez mais precocemente,  e deixamos os nossos idosos reclusos em suas casas. Perdemos todo o senso de público e começamos a pensar a partir do privado, não conseguimos reconhecer o outro e perdemos o respeito para os nossos co-cidadãos. No traçado urbano temos muita engenharia e pouco design prático para humanos.

A presença do ciclista na calçada ou do pedestre na ciclovia é um sintoma desta doença automobilística brutal e enquanto começamos a complicar apenas o conflito entre pedestres e ciclistas esquecemos que  somos ameaçados pelo paradigma errado, que prejudica o acesso e mobilidade para todos na cidade. Mesmo aos usuários dos automóveis. Carros demais fazem mal a todos.

Se queremos conseguir uma melhor qualidade de vida urbana, precisamos escutar a nossa consciência,  reconhecer essa enfermidade, e projetar a cidade tendo o corpo humano como o centro e não as 2 toneladas de vidro e plástico de metal que deformou toda a cidade.

A revolução se consegue pedalando.

Publicada originalmente em: http://www.arribaelachancha.cl

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Bicicletas Liberadas em Parques de BH

Por Gil Sotero

Finalmente os parques de BH serão liberados para ciclistas! Como já tinha descrito antes aqui no blog fiquei acompanhando projetos que impulsionam o uso da bicicleta em BH. Alguns deles que alterariam uma lei (absurda) criada em 2011 que proíbe bicicletas de adultos em Parques de BH. Foi aprovada na tarde dessa quarta-feira, 09,  em 2º turno, o projeto Lei 934/13 de autoria do vereador Pablito, que altera dispositivos da Lei 10.285/11 estendendo às bicicletas de maior porte a permissão para ingressar nos parques da capital. O projeto entretanto exclui os Parques das Mangabeiras e da Serra do Curral e também proíbe e-bikes de circularem nos parques públicos. Após aprovação da redação final, as matérias seguem para sanção ou veto do prefeito Márcio Lacerda e publicação no Diário Oficial.

Parque Municipal Américo Renné Giannetti possui atualmente menos de 500 metros de ciclovias. Foto: Jornal Contramão/UNA

Parque Municipal Américo Renné Giannetti possui atualmente menos de 500 metros de ciclovias. Foto: Jornal Contramão/UNA

Através de sua assessoria de imprensa a Fundação de Parques disse que só vai se manifestar após publicação da Lei no Diário Oficial. Eles terão um prazo para se adequar, como por exemplo criar mais ciclovias no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, que atualmente possui menos de 500 metros de vias. Tudo indica que em 2016 já teremos muitos parques para pedalar em BH. Viva!

Abaixo redação da PL

PROJETO DE LEI N° 934/2013
SUBSTITUTIVO-EMENDA N° Altera dispositivos da Lei n° 10.285/2011, que Autoriza o uso de bicicleta de pequeno porte nos parques do Município de Belo Horizonte.
Art. 1° Fica autorizada a entrada de bicicletas não motorizadas ou elétricas, de qualquer porte, nos parques do Município de Belo Horizonte. Parágrafo único – A autorização prevista no caput não se aplica ao Parque das Mangabeiras e ao Parque da Serra do Curral.
Art. 2° O uso de bicicletas será permitido somente em áreas específicas, ostensivamente indicadas, previstas no regulamento de cada parque.
§1° O regulamento poderá proibir o uso de bicicletas na hipótese de ausência de espaço disponível para a prática no parque.
§2° O uso de bicicletas poderá ser suspenso temporariamente por motivo de relevante interesse social ou ambiental. §3° A definição das áreas para circulação de bicicletas poderá contar com a participação da comunidade interessada. Art. 3° As áreas para circulação de bicicletas não se situará:
I — em áreas de preservação permanente, conforme previsto na legislação ambiental brasileira;
II — em áreas de relevância ambiental;
III — em áreas que ofereçam risco à segurança dos usuários do parque.
Art. 4° O uso de bicicletas sem a observância desta lei será punível com apreensão e multa, conforme regulamento próprio.
Art. 5° Os casos omissos ou as divergências na aplicação desta Lei deverão ser resolvidos pela Fundação de Parques Municipais.
• , CÂMARA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE ‘0~1 Art. 6° Fica revogada a Lei n° 10.285, de 14 de outubro de 2011. Art. 7° Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

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Bicicleta para mulheres?

By Jéssica Almeida (*)

Esqueça as bicicletas cor-de-rosa, as flores na cestinha e o top tube rebaixado. Esses ítens estão também em bicicletas pedaladas por mulheres, mas não por todas elas. Pensar em bicicleta ideal para mulher é universalizar o “ser mulher”, é tornar invisível as necessidades e vivências de cada uma. Infelizmente, mas não surpreendentemente, é preciso lembrar que as mulheres não são iguais, logo, não há bicicleta para mulheres, porque ser mulher é ser diversa.

goatheadz

O que ainda chamam de “bicicleta para mulher” é o protótipo usado no século XX, onde a mulher que pedalava tinha um perfil estereotipado: estatura média-alta e moradora de cidades aplanadas e frias. O cenário é outro faz tempo, mas o imaginário popular ainda é conduzido por essa padronização. Mas principalmente nas cidades urbanas, é preciso pensar numa série de fatores: como você quer usar a bicicleta? Você quer que ela seja seu meio de transporte, seu instrumento para prática de um esporte, ou apenas para o lazer aos fins de semana? Outra pergunta muito importante é: qual é a sua estatura?

Transporte:

Para percorrer grandes distâncias em menos tempo e com mais facilidade, é legal dar uma olhada nas speeds. A vantagem é que esse tipo de bicicleta, por ser mais veloz, faz grandes percursos em um tempo bem menor. A desvantagem é que o selim costuma ser mais alto que o guidão, o que te fará pedalar com o corpo mais inclinado para a frente e isso pode incomodar um pouco as costas e pescoço no início. Fique atenta também ao tamanho do aro! Minha ex-companheira AzulCrina (RIP), uma Caloi 10 anos 80-90, tinha aro 27 e era muuuuito difícil encontrar câmaras de ar para ela em BH. Fique de olho nos aros 700.

Janaïna Rochido sobre a Alvares Cabral numa bike speed aro 700. Foto Gil Sotero

Também há a possibilidade de você fazer seu trajeto integrando a bicicleta ao transporte público. Nesse caso, uma boa pedida pode ser a bicicleta dobrável, que é fácil de carregar e guardar. Em um minuto você a “monta e desmonta” e ela pode ser embarcada nos metrôs e ônibus como uma bagagem comum. Se seu trajeto for curto, melhor ainda.

Renata Aiala em sua dobrável. Foto Gil Sotero

Renata Aiala em sua dobrável. Foto Gil Sotero

Já ouviu falar nas bikes single speed e fixa? As singles tem uma única marcha, são mecanicamente mais simples e muito indicadas para o uso diário e topografia plana. A desvantagem, que na verdade nem é tão desvantajosa assim, é que subir morrinhos exige muito esforço. Como ela atinge uma velocidade razoável no plano, para subir é preciso colocar mais força no pedal, pedalar em pé ou, dependendo do seu condicionamento ou da inclinação do morro, descer e empurrar sua bici. Já as fixas, são conhecidas pela pedalada constante, uma vez que os pedais empurram seus pés a rodar mesmo numa descida (consequência do pinhão que mantem o giro da roda diretamente conectado ao giro da corrente). Já ouvi várias pessoas conhecidas relatarem sobre como é completamente diferente a experiência de usar uma bicicleta fixa, pois a própria bicicleta é uma grande sujeita da pedalada. Apesar do esforço também maior em subidas, ela aproveita melhor os movimentos das suas pernas. A desvantagem principal das fixas é que para descer aclives é preciso muito controle das pernas para que os pedais não atinjam uma velocidade que você não dê conta; coisa que amigas e amigos fixeiros me contaram é que com a prática isso deixa de ser um problema. E amiguinhas, um mito: singles e fixas não são mais perigosas que as bicicletas de roda livre. Tudo vai depender do que você quer pedalando e da sua prática.

 

Bruna Castro usando um single em BH


 

Aline Souza usa bicicleta fixa há anos em SP e a qualquer cidade que visita.

  

Mulheres que praticam pouca ou nenhuma atividade física podem se adaptar com maior dificuldade em bicicletas speed, single speed ou fixas. Só pedalar muito que melhora. Fique atenta também aos materiais que compõem as peças. Se seu uso vai ser diário ou longo ou com morrinhos, dê uma pesquisada nos materiais mais leves.

Trilha:

Vocês pensam que não, mas a mulherada curte mountain bike também. E ao se envolver no rolê das trilhas, é preciso ter bastante atenção ao escolher bicicletas com uma suspensão resistente para aguentar o tranco dos impactos. Elas tem pelos menos 21 marchas, os pneus devem ser de cravos e leveza também é fundamental. O bacana é que nada te impede de usá-la no asfalto também, moça. E atenção ao fato de que, como essas bicicletas estão sempre sujeitas a condições diversas de terreno, vão precisar de manutenção mais frequente. Elas normalmente são aro 26, mas é possível encontrá-las com aros 27,5 e 29.

juliane rocha

Juliane Rocha (e esposo) em trilhas perto de BH. Acervo

Lazer:

Para pedalar fins de semana, as bicicletas mais simples são suficientes. Procure pelas bicicletas híbridas ou confort bike.

Materiais:

Podem variar de acordo com os mesmos fatores: peso e motivo de uso. O aço é o mais comum. É bom, forte e dura muito, mas bem pesadinho. Para ter uma bike como meio de transporte talvez não seja uma boa ideia optar pela de aço. O cromoly é bem leve, mas forte e duradouro, ideal para o uso diário e percursos longos. Porém, é preciso investir um pouco mais financeiramente justamente por ter estas vantagens. O alumínio também é comum e até barato. Não é tão pesado e é bem resistente.

E onde minha altura fica nessa história?

Altura média da mulher em metros em relação ao tamanho do quadro:

Por exemplo:

Uma mulher se 1,50 – 1,60 é mais indicada a pedalar com quadro de 15 polegadas no caso de MTB (mountain bikes) e algumas bicicletas híbridas (esses modelos são medidos em polegadas mesmo) ou 48cm para quadros de speed (nesse caso, medida em centímetros).

E aí a gente segue:

1m60 – 1m70 x 16/17′ ou 50/52/54 cm
1m70 – 1m80 x 18/20′ ou 54/55/56 cm
1m80 – 1m90 x 21/22′ ou 57/58 cm
1m90 x 22′ ou 60/62 cm

Para saber mais sobre o tamanho certo leia aqui.

Geralzão:

O formato dos quadros não vai depender do seu gênero e sim de quanto tempo você vai passar pedalando. A Escola de Bike tem um conteúdo bem bacana explicando as variedades de seat tube e top tube. Ficou mais perdida ainda com os termos? No link o pessoal indicou tudo! Mulheres com obesidade e que ficaram na dúvida também podem conferir várias informações importantes aqui. Outra dica importantíssima é saber fazer ao menos a mecânica básica da bici escolhida. Não espere ninguém te ensinar, gata. Compre ferramentinhas básicas como um canivete de chaves allen, philips e torx (rapidinho você vai tirar de letra qual é qual), espátulas, remendos, cola e bomba de ar e dê uma chafurdada em tutoriais e sites que ensinam os procedimentos principais. Você é mais do que capaz e não precisa ficar na mão quando um pneu furar ou algum parafusinho afrouxar né?

O importante é pedalar e ser senhora da sua autonomia e do seu trânsito nesse mundão. Costumo dizer que a bicicleta é uma das ferramentas mais libertadoras que existem e sua presença no espaço público é fundamental.

P.S.: Isso tudo foi embasado em conversas com amigas e amigos e coisas que fui aprendendo em 2 anos pedalando, sendo um ano usando a bike como meio de transporte. O que eu não sabia, eu soube fazendo o que a ente devia ser mestre em fazer: pesquisando. Caso haja generalizações ou considerações fora de lugar, usem o espaço dos comentários para trocarmos ideias.


Jessica de Almeida, 22, aprendiz de jornalista e bicicleteira.