1° Grafite Bike Tour – BH

Por Gil Sotero

Em novembro de 2014 o Palácio das Artes exibiu o documentário “Zé do Pedal – As Fronteiras do Mundo” curta-metragem dirigido por Bruno Lima e Fabricio Menicucci ( de 24 minutos) que traz um registro sobre uma das viagens de Zé do Pedal – apelido que tornou o mineiro José Geraldo de Souza Castro mundialmente por ter visitado mais de 78 países, em cinco continentes, e pedalado cerca de 145 mil quilômetros mundo afora. O Palácio das Artes é conhecido por barrar bicicletas e nessa sessão não foi diferente. Resultado: a comunidade ciclística de BH não foi assistir pois não tinha onde deixar as bikes.

No mesmo mês tentei conhecer o Inhotim de bicicleta. Eu soube que o museu estava oferecendo carrinhos elétricos e a época não havia regras no site da instituição a respeito das bikes. Tentei entrar com minha dobrável, mas fui barrado. Acho que depois do meu incidente resolveram explicitar a proibição das bike’s que agora consta na página deles.

inhotim

Se até os “templos” das artes estão ignorando as bicicletas, o que fazer? Ir para as ruas. As ruas que inspiram e que são palcos livres e gratuitos de muitas atividades humanas, inclusive e talvez principalmente da arte. Quem pedala pela por BH já deve ter reparado nos grafites da cidade e o quanto há gente talentosa colorindo as ruas da cidade.

As ruas do Inhotim são

Foi pensando sobre isso que pensei em tirar da cabeça a ideia de um roteiro para se fazer de bicicleta com o foco no grafite. A ideia não é nova e já acontece em cidades como Paris, Londres e São Paulo. A rota só foi possível graças a ajuda de Priscila Amoni , da Adriana do site Grafite BH e do Mapa do Graffiti

Antes de ir ao Roteiro vamos esclarecer alguns conceitos: A expressão gráfica em áreas publicas não são um fenômenos modernos. 70 a.d Pompéia, Itália, já registrava poesias, xingamentos, anúncios e etc nas suas ruas. Na idade média padres pichavam paredes de ordens rivais.

O grafite moderno nasceu na França, na década de 60. Precisamente em 68 quando jovens e populares começaram a ocupar espaços da cidade protestando com várias ações, como panfletos e jornais, frases curtas, contra às pressões de mais de vinte anos de Guerra Fria, a manipulação da opinião pública e promoção do capitalismo por meio da mídia e demonstraram insatisfação com ao “socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente no leste Europeu, e entre os Partidos Comunistas europeus ocidentais, vistos como ultrapassados.

1968 : les murs ont la parole.

Foi uma revolução sem tiros e bombas, mas das pedradas , pichações, reuniões de massa, autofalante e irreverência. Essa “fissura nuclear” espontânea abalou as instituições e regimes e promoveu transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Entre os slogans grafitados pelos muros de Paris, podia-se ler: “Quando penso em revolução quero fazer amor”; “É proibido proibir” (titulo de uma musica do tropicalista Caetano Veloso); “A felicidade é o poder estudantil”.

Grafites de NY na década de 70.

Mas foi quando Nova Iorque virou o palco dessa efervescência que o grafite ganhou o mundo. Homens jovens conhecidos como writers começaram a assinar seus nomes ou apelidos em letras estilizadas que ficaram conhecidas como “Tags”. Logo em seguida o movimento Hip Hop nasceu e estabeleceu o grafite como uma das suas bases ideológicas. No Hip Hop o grafite foi “amplificado”. O contexto eram os subúrbios novaiorquinos repletos de problemas sociais como a violência, o racismo o tráfico de drogas e mil carências. Território de muitas gangues que funcionavam como um movimento opressor dentro das periferias.

As “Tags” logo viraram mensagens de ordens (a ser seguidas por todos) e demarcações de território. No Hip-Hop o grafite logo virou uma forma de extravasar essa violência e isso incentivou uma competição artística em que o grafite era a expressão do estilo de cada um. Nos anos 70 muitos grafiteiros novaiorquinos eram estudantes de arte ou designers e se interessavam pela arte. Se organizaram em grupos para pintar juntos e formaram os crews, para pintar melhor em grandes áreas.

O grafite “desembarcou” no Brasil primeiro em São Paulo. Hoje a cidade é referência internacional

O grafite contemporâneo é um modo de expressar a criatividade e referências do grafiteiro. O grafite “desembarcou” no Brasil primeiro em São Paulo. Segundo o Gitahy no livro “O que é graffiti” houve quatro fases da pichação no país. A primeira pela afirmação do próprio nome. Era uma repetição do nome do pichador em toda cidade com objetivo de chamar atenção para si. Na segunda a competição por espaço. Nessa fase os nomes foram substituídos pelos pseudônimos ou símbolos e houve uma saturação dos espaços físicos que levou a terceira fase, onde os pichadores passaram a competir pelos lugares mais altos. Na última fase, a pichação servia para atrair a atenção da mídia e gerar polêmicas.

Há mais de 20 anos o grafite está presente em espaços privados e galerias. Deixou de ser uma atividade “marginalizada” e recebeu o status de manifestação artística. Alguns pesquisadores consideram que estamos vivendo a época do pós-grafite pois a intervenção urbana vem se diversificando, incorporando novas técnicas ao processo de criação e produção e com destaque para o Brasil cujos grafite tem reconhecimento mundial. Os artistas de rua atuais usam novas técnicas e outras plataformas para se expressar. Podemos dividir os os grafites em:

  1. Pichação , assinatura monocromáticas, chamadas de tags, em tinta spray. Pichações poéticas estão virando febre em várias cidades como a “Poesia Marginal”, da década de 60 que pregava a libertação poética tanto dos termos, como das plataformas utilizadas.
  2. Grafites – pinturas e desenhos usando o spray e tinta de forma livre.
  3. Sticks ou lambe-lambe – ilustrações em papel adesivo, geralmente tamanho A4 ou pôsteres colados em paredes, postes, pisos, tetos e placas nas ruas, cujo propósito é constituir uma resposta estética a poluição visual da cidade por causa das propagandas.
  4. Estêncil – Uma técnica que utiliza moldes vazados através das quais o spray transfere para a superfície escolhida o desenho ali contido.
  5. Grapicho – É uma técnica em que é usada a estilização do apelido do grafiteiro em letras elaboradas e coloridas, com contorno e preenchimento. Estabelece conexões com o grafite pelo fato da elaboração e do detalhamento dos trabalhos, e com a pichação, por constituir algo semelhante a uma assinatura.

Muita gente confunde pichação com grafite mas são totalmente diferentes. “Na pichação, logo, não há um traço estético qualitativo obrigatório, nem na forma nem em relação ao conteúdo. O graffiti, por outro lado, é uma atividade relacionada à apropria- ção do espaço urbano para o desenvolvimento de painéis elaborados em tinta spray ou outros materiais, porém não monocromáticos e nem com traços econômicos, mas sim extremamente complexos e coloridos. Está relacionado às artes plásticas, à pintura e à gravura, com maior preocupação em relação ao desenho e à representação plástica da imagem”.

ROTEIRO

O roteiro começou na Estação Santa Tereza onde pudemos observar o Grapicho logo na saída do Metrô em direção ao bar do Seu Orlando.

Turma que participou do 1° Grafite Bike Tour BH. Foto Gil Sotero

Em seguida avistamos o trabalho de Priscila Amoni e de outros grafiteiros.

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Grafite CIDADE-PULMÃO. Priscila Amoni. Foto. Gil Sotero

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Tiago Alvin, Hyper, e vários outros grafites legais foram vistos.

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Vejam mais fotos na

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O mapa do trajeto realizado. Começou no Santa Tereza e terminou no Viaduto do Extra. O registro da rota foi de Túlio Borges.

trajeto

O passeio foi experimental mas o primeiro roteiro pode ser facilmente refeito. Sábado a tarde e Domingo pela manhã são os melhores dias e horários para se fazer. Aguardem breve um novo Grafite Bike Tour BH.

2 comentários sobre “1° Grafite Bike Tour – BH

  1. Boa tarde! Meu nome é Larissa, e estou diretora de Planejamento e Patrimônio do Centro de Estudos e Memória da Juventude- CEMJ, uma entidade sem fins lucrativos e que bimestralmente lançamos a revista Juventude.Br gratuitamente (http://cemj.org.br/nossosProjetos_RevistaJuventude_br.asp). A nossa próxima edição trará o tema Cidades Mais Humanas e Juventude. Em nossa pesquisa sobre imagens encontramos a do grafitte de Priscila Amoni, e gostaríamos de utilizar a imagem para nossa capa, dando os devidos créditos da foto. Se tiver dúvidas, por gentileza entre em contato.

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