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Bicinventor 

Hoje avistei um triciclo “estranho” no centro de BH. Ele é um projeto de um senhor obstinado.  Por 15 anos seu Clécio Magela Costa, 64, trabalha num triciclo que possui uma central que o move sem muito esforço. O motor veio por necessidade depois de uma cirurgia no joelho que o impediu de fazer força. O senhor veio de Manhuçu para BH, sozinho, na expectativa de chamar a atenção do programa do Luciano Hulk. A estratégia dele é carregar uma placa da Ricardo Eletro, pois ele acredita que o Ricardo vai ajudá-lo a chegar ao Luciano.  

Alheio a tudo que está acontecendo sobre bike no Brasil esse senhor acredita que sua “invenção” é uma forma inovadora e sustentável para se locomover nos centros urbanos. Ele disse que patenteou um central que com pouca força faz o triciclo andar tranquilamente por BH, sem o motor. A central não estava instalada no veículo pois ele teme que seja copiado. Vi uma foto e achei interessante. O que mais me comoveu foi perceber a tristeza do seu Clécio em não ter atenção nem ser recebido pelo Luciano. Fiquei refletindo quantas pessoas pelo mundo vivem pelos seus projetos solitários na esperança de que um dia alguém reconheça. As vezes percebo que a “luta” por mais bicicletas na cidade é assim; quase meio em vão pois, a maioria das pessoas só querem um novo modelo de automóvel. 

Renato Russo disse certa vez numa entrevista que: “Quem sonha é quem mais faz”. Eu reconheço o sonho de seu Clécio e precisamos de mais bicinventores. 

 

O motor na frente do triciclo para uma coisa. Fico imaginando como deve ser para fazer curvas.  

  

  Achei o triciclo bem simpático. Deu pra notar que há muito dedicação nele. 

      

 

 

 

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A Menina de Lenço

Maria Trika, estuda no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que fica na Professor Moraes. Ela é a única garota que vai de bicicleta. “É horrível porque na escola não tem onde guardar a bicicleta. Eu tenho que subir as escadas carregando-a. Vivo tentando incentivar a galera mas como não há estrutura eles não animam. Mesmo assim amo pedalar. No começo eu pensava: Ah.. não dá para ir de saia e etc, mas depois chegou um ponto que decidi manter meu estilo pois é parte da minha identidade” declarou Trika.

IMG_0193IMG_0189 IMG_0192Adorei o style dela, principalmente o lenço. Quando a vi lembrei-me da garota do quadro do pintor holandês Johannes Vermeer.

Girl with a pearl earring oil

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1° Grafite Bike Tour – BH

Por Gil Sotero

Em novembro de 2014 o Palácio das Artes exibiu o documentário “Zé do Pedal – As Fronteiras do Mundo” curta-metragem dirigido por Bruno Lima e Fabricio Menicucci ( de 24 minutos) que traz um registro sobre uma das viagens de Zé do Pedal – apelido que tornou o mineiro José Geraldo de Souza Castro mundialmente por ter visitado mais de 78 países, em cinco continentes, e pedalado cerca de 145 mil quilômetros mundo afora. O Palácio das Artes é conhecido por barrar bicicletas e nessa sessão não foi diferente. Resultado: a comunidade ciclística de BH não foi assistir pois não tinha onde deixar as bikes.

No mesmo mês tentei conhecer o Inhotim de bicicleta. Eu soube que o museu estava oferecendo carrinhos elétricos e a época não havia regras no site da instituição a respeito das bikes. Tentei entrar com minha dobrável, mas fui barrado. Acho que depois do meu incidente resolveram explicitar a proibição das bike’s que agora consta na página deles.

inhotim

Se até os “templos” das artes estão ignorando as bicicletas, o que fazer? Ir para as ruas. As ruas que inspiram e que são palcos livres e gratuitos de muitas atividades humanas, inclusive e talvez principalmente da arte. Quem pedala pela por BH já deve ter reparado nos grafites da cidade e o quanto há gente talentosa colorindo as ruas da cidade.

As ruas do Inhotim são

Foi pensando sobre isso que pensei em tirar da cabeça a ideia de um roteiro para se fazer de bicicleta com o foco no grafite. A ideia não é nova e já acontece em cidades como Paris, Londres e São Paulo. A rota só foi possível graças a ajuda de Priscila Amoni , da Adriana do site Grafite BH e do Mapa do Graffiti

Antes de ir ao Roteiro vamos esclarecer alguns conceitos: A expressão gráfica em áreas publicas não são um fenômenos modernos. 70 a.d Pompéia, Itália, já registrava poesias, xingamentos, anúncios e etc nas suas ruas. Na idade média padres pichavam paredes de ordens rivais.

O grafite moderno nasceu na França, na década de 60. Precisamente em 68 quando jovens e populares começaram a ocupar espaços da cidade protestando com várias ações, como panfletos e jornais, frases curtas, contra às pressões de mais de vinte anos de Guerra Fria, a manipulação da opinião pública e promoção do capitalismo por meio da mídia e demonstraram insatisfação com ao “socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente no leste Europeu, e entre os Partidos Comunistas europeus ocidentais, vistos como ultrapassados.

1968 : les murs ont la parole.

Foi uma revolução sem tiros e bombas, mas das pedradas , pichações, reuniões de massa, autofalante e irreverência. Essa “fissura nuclear” espontânea abalou as instituições e regimes e promoveu transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível. Entre os slogans grafitados pelos muros de Paris, podia-se ler: “Quando penso em revolução quero fazer amor”; “É proibido proibir” (titulo de uma musica do tropicalista Caetano Veloso); “A felicidade é o poder estudantil”.

Grafites de NY na década de 70.

Mas foi quando Nova Iorque virou o palco dessa efervescência que o grafite ganhou o mundo. Homens jovens conhecidos como writers começaram a assinar seus nomes ou apelidos em letras estilizadas que ficaram conhecidas como “Tags”. Logo em seguida o movimento Hip Hop nasceu e estabeleceu o grafite como uma das suas bases ideológicas. No Hip Hop o grafite foi “amplificado”. O contexto eram os subúrbios novaiorquinos repletos de problemas sociais como a violência, o racismo o tráfico de drogas e mil carências. Território de muitas gangues que funcionavam como um movimento opressor dentro das periferias.

As “Tags” logo viraram mensagens de ordens (a ser seguidas por todos) e demarcações de território. No Hip-Hop o grafite logo virou uma forma de extravasar essa violência e isso incentivou uma competição artística em que o grafite era a expressão do estilo de cada um. Nos anos 70 muitos grafiteiros novaiorquinos eram estudantes de arte ou designers e se interessavam pela arte. Se organizaram em grupos para pintar juntos e formaram os crews, para pintar melhor em grandes áreas.

O grafite “desembarcou” no Brasil primeiro em São Paulo. Hoje a cidade é referência internacional

O grafite contemporâneo é um modo de expressar a criatividade e referências do grafiteiro. O grafite “desembarcou” no Brasil primeiro em São Paulo. Segundo o Gitahy no livro “O que é graffiti” houve quatro fases da pichação no país. A primeira pela afirmação do próprio nome. Era uma repetição do nome do pichador em toda cidade com objetivo de chamar atenção para si. Na segunda a competição por espaço. Nessa fase os nomes foram substituídos pelos pseudônimos ou símbolos e houve uma saturação dos espaços físicos que levou a terceira fase, onde os pichadores passaram a competir pelos lugares mais altos. Na última fase, a pichação servia para atrair a atenção da mídia e gerar polêmicas.

Há mais de 20 anos o grafite está presente em espaços privados e galerias. Deixou de ser uma atividade “marginalizada” e recebeu o status de manifestação artística. Alguns pesquisadores consideram que estamos vivendo a época do pós-grafite pois a intervenção urbana vem se diversificando, incorporando novas técnicas ao processo de criação e produção e com destaque para o Brasil cujos grafite tem reconhecimento mundial. Os artistas de rua atuais usam novas técnicas e outras plataformas para se expressar. Podemos dividir os os grafites em:

  1. Pichação , assinatura monocromáticas, chamadas de tags, em tinta spray. Pichações poéticas estão virando febre em várias cidades como a “Poesia Marginal”, da década de 60 que pregava a libertação poética tanto dos termos, como das plataformas utilizadas.
  2. Grafites – pinturas e desenhos usando o spray e tinta de forma livre.
  3. Sticks ou lambe-lambe – ilustrações em papel adesivo, geralmente tamanho A4 ou pôsteres colados em paredes, postes, pisos, tetos e placas nas ruas, cujo propósito é constituir uma resposta estética a poluição visual da cidade por causa das propagandas.
  4. Estêncil – Uma técnica que utiliza moldes vazados através das quais o spray transfere para a superfície escolhida o desenho ali contido.
  5. Grapicho – É uma técnica em que é usada a estilização do apelido do grafiteiro em letras elaboradas e coloridas, com contorno e preenchimento. Estabelece conexões com o grafite pelo fato da elaboração e do detalhamento dos trabalhos, e com a pichação, por constituir algo semelhante a uma assinatura.

Muita gente confunde pichação com grafite mas são totalmente diferentes. “Na pichação, logo, não há um traço estético qualitativo obrigatório, nem na forma nem em relação ao conteúdo. O graffiti, por outro lado, é uma atividade relacionada à apropria- ção do espaço urbano para o desenvolvimento de painéis elaborados em tinta spray ou outros materiais, porém não monocromáticos e nem com traços econômicos, mas sim extremamente complexos e coloridos. Está relacionado às artes plásticas, à pintura e à gravura, com maior preocupação em relação ao desenho e à representação plástica da imagem”.

ROTEIRO

O roteiro começou na Estação Santa Tereza onde pudemos observar o Grapicho logo na saída do Metrô em direção ao bar do Seu Orlando.

Turma que participou do 1° Grafite Bike Tour BH. Foto Gil Sotero

Em seguida avistamos o trabalho de Priscila Amoni e de outros grafiteiros.

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Grafite CIDADE-PULMÃO. Priscila Amoni. Foto. Gil Sotero

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Tiago Alvin, Hyper, e vários outros grafites legais foram vistos.

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Vejam mais fotos na

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O mapa do trajeto realizado. Começou no Santa Tereza e terminou no Viaduto do Extra. O registro da rota foi de Túlio Borges.

trajeto

O passeio foi experimental mas o primeiro roteiro pode ser facilmente refeito. Sábado a tarde e Domingo pela manhã são os melhores dias e horários para se fazer. Aguardem breve um novo Grafite Bike Tour BH.

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Experimente

Se você pensa em usar a bicicleta como meio de transporte mas ainda não tem uma, experimente usar o Bike BH. O sistema bike share da cidade que está fazendo a cabeça de muita gente.

“Uso bicicleta há pouco tempo e já é meu principal meio de transporte no dia-a-dia. Vou com ela a reuniões, ao banco, encontrar com a namorada na Savassi e por aí vai… Não escolho a roupa exclusivamente pra usar na bicicleta, mas sempre escolho roupas pra não morrer de calor, de acordo com o clima, enquanto pedalo. Sempre levo uma outra camisa na mochila caso fique muito suado. Na maioria das vezes estou de bota, calça jeans escura com a bainha dobrada, com algum desenho mais clássico e camisa. Acho que a minha qualidade de vida foi o que mais melhorou neste período que estou usando a bicicleta.Em três meses  e já sinto uma disposição maior no meu dia, além de perder alguns quilinhos, rs. O fato de conseguir chegar mais rápido nos lugares que preciso também foi um ganho e tanto. Normalmente quando vou até a Savassi gasto 13 minutos, mais rápido do que esperar e pegar ônibus para chegar até lá. Comecei a usar o Bike BH exatamente pra ver como seria usar a bicicleta como meio de transporte oficial antes de fazer o investimento e agora já estou olhando uma pra comprar”. Leo Lima, videomaker.

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Leo Lima, videomaker, BH – Foto Gil Sotero

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Leo Lima – Videomaker – BH – Foto Gil Sotero

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Chame a Bike Girl Naiara

Naiara Campos, 26,  formada em arquitetura e urbanismo é a única garota a trabalhar numa empresa de Bike Menssager em BH.  Ela pedala há pelo menos dois anos na capital mineira.

“Pra mim a bicicleta representa a liberdade diante desse trânsito maluco”, disse.  Trabalhando como bike girl há pouco mais de 5 meses ela disse que no começo foi muito difícil. Não por causa dos morros e ladeiras de BH. “Eu subo qualquer ladeira no meu ritmo mas o grande desafio é o preconceito.  Até de ciclistas que acham que eu não vou dar conta realizar as entregas!. Eu não deixo me abater”, declarou Naiara. Sobre ser a única garota do grupo ela resumiu: “Algumas até tentaram mas só eu fiquei. E seguirei em frente, o que importa é você gostar e sentir prazer em pedalar”, finaliza.

Ajude uma Bike Girl. Se você quiser o serviço da Naiara ligue para (31) 4042-3339.